Era uma vez…

… um lugarzinho no meio do nada!

Fiquem tranquilos, eu não vou dar uma de Sandy e sair cantando.

Mas, é sério, imaginem um lugar isolado, mas tão isolado que você só chega de barco ou por uma estrada. Sim, UMA estrada! E essa estrada ainda tem uso restrito para a empresa de turismo que opera o Circuito Andino e autoridades. E aí? Isolado o bastante?

Um vilarejo com cerca de 120 habitantes, cercado por montanhas de topo nevado de um lado e, do outro, a floresta do Parque Nacional Vicente Perez Rosales.

Única estrada que leva a Peulla, a rota utilizada cruza o Parque Nacional Vicente Perez Rosales e liga o Chile à Argentina.

Sim, esse lugar existe e tem um dos cenários mais lindos que já vi!

20141013 Cruzeiro e Bariloche 056

Peulla não chega nem a ser uma cidade, mas um povoado. Tem somente uma escola, onde todos os moradores do local estudaram. Da mesma forma, não tem hospital, tem só um posto de saúde, onde uma enfermeira aparece a cada semana e o médico vai uma vez por mês. Em casos mais graves, há uma pista de pouso na fazenda do “dono da cidade” e os pacientes são removidos de avião.

Na foto acima, posto de saúde fechado. O local recebe médico uma vez por mês.                        Abaixo, escola em que estudaram todos os cidadãos de Peulla.

20141013 Cruzeiro e Bariloche 042

Apesar disso, o lugar faz bem para a saúde. O ar é tão puro que parece até que o corpo vai estranhar. Eu cheguei a Peulla com uma tosse que já durava quase duas semanas. Era tanta tosse que, em algumas noites, chegava a acordar. Foi só chegar a Peulla que parou!

É preciso entender que Peulla é o último, ou primeiro, posto de fronteira no Chile, quando você cruza a Cordilheira dos Andes, entrando ou saindo do país em direção à Argentina. O lugar é, praticamente, de passagem, então não espere muitas opções, como nas cidades grandes. O normal é que você passe pela cidade fazendo um cruzeiro pelos Lagos Andinos, como aconteceu comigo.

Apesar da tabela sem aro, alunos da única escola de Peulla contam com uma vista inigualável no pátio em que passam o recreio.

 

Peulla é o paraíso na Patagônia Chilena, mas você, provavelmente, vai ficar pouco tempo! Eu fiquei dois dias, no meu caso foi o suficiente! Se eu ficasse mais que isso, ficaria completamente entediado.

Para deixar mais claro, eu diria que é a evolução de um hotel fazenda.

Eles têm dois hotéis, que pertencem à mesma família, mas em época de pouco movimento, abrem somente um. Excelente hotel, por sinal. Pelo que me falaram, os donos do hotel são donos da cidade toda.

Não é o tipo de lugar em que você vai fazer compras, já que tem somente um armazém, que também pertence aos donos do hotel. Nem é o tipo de lugar em que você vai comer em restaurantes chiques, já que também jantará no hotel, com uma boa comida, só para deixar claro.

A mesma família é dona de, praticamente, toda a cidade. Hotel, armazém, fazenda, a empresa que faz os passeios ecológicos, etc.

Deve ser complicado não ter muitas opções de trabalho, mas, pelo menos, ninguém na cidade paga água nem luz. Os dois são gerados com os recursos naturais da região e fornecidos gratuitamente à população.

A cachoeira do Véu de Noiva é uma das atrações das trilhas de Peulla

 

Em Peulla, além de ar puro e uma vista impressionante, como já revelei alguns parágrafos acima, você tem opções de passeios ecológicos, como fazendinha e tirolesas. Ainda dá para fazer trilhas e ver cachoeiras, como a “Véu da Noiva”, que deve ser o nome mais comum para cachoeiras.

Na fazenda, o bicho que faz mais sucesso com os visitantes são as lhamas, mas o local conta com outros bichos mais comuns para os brasileiros, como vacas, cabras, bodes, porcos e cavalos. Quem também chama a atenção são os cervos, que costumam ficar escondidos entre as árvores da Parque Nacional, mas que sempre aparecem para fazer uma boquinha.

As lhamas fazem sucesso com os turistas que visitam a fazendinha de Peulla, mas dividem o espaço com animais mais conhecidos como vacas e cavalos, além de outros selvagens, como os cervos.

 

Uma coisa que me chamou muito a atenção foi a reação da recepcionista, quando perguntei a ela se era seguro sair para tirar fotos, à uma da manhã. “Sim. Não tem animais por aqui”, foi a resposta que recebi. Na boa, eu sou carioca e moro na Tijuca, um dos bairros mais populosos do Rio. Quando eu pergunto se é seguro, estou preocupado em não tomar um tiro, não perder a minha câmera ou não ser atropelado.

Devo ter ficado umas duas horas, mais ou menos, caminhando ali por perto e tirando fotos noturnas. Nesse período, só o que passou por mim foi um gato.

Bom. Falei que você vai ver belas montanhas, muitas árvores, lago, cachoeiras, etc. O que eu não falei é que, se você der sorte de o céu ter poucas nuvens, você verá um dos céus mais estrelados da sua vida!

Numa cidadela desse tamanho, quase não há poluição luminosa. Isso é o que nos impede de ver tantas estrelas, principalmente em cidades grandes, como Rio ou São Paulo. Mas, lá em Peulla, as estrelas dominam o céu.

20141013 Cruzeiro e Bariloche 006

E, ao contrário do que as fotos possam mostrar, o céu ainda estava um pouquinho nublado. Tanto que eu só fui fazer foto de madrugada, quando melhorou um pouco.

Dicas de foto:
1 – Uma dificuldade grande, sob condições de luminosidade muito reduzida ou quase inexistente, é conseguir “mirar” e focar o que você quer fotografar. Como não tem luz ambiente, o trabalho é bem complicado. Como o objetivo é fotografar paisagem, tente utilizar uma abertura de diafragma pequena. Nas duas fotos de céu estrelado, eu usei f/5.6, por exemplo. Quanto menor a abertura, maior a profundidade de campo. Isso quer dizer que mais coisas ficam em foco.

2 – Para quem é da época do filme, lembram de pedir um filme pela “asa”? “Asa 100”, “asa 200” e “asa 400”, assim por diante. O que chamávamos de “asa”, na verdade é o ISO, a sensibilidade do filme à luz. Nas câmeras digitais, isso continua, mas é a sensibilidade do sensor responsável pela captação da imagem. Quanto maior o ISO, maior a sensibilidade. Por que eu expliquei isso? Para poder chegar à mais uma dica. Comparando duas fotos com a mesma abertura, a quanto maior o ISO, menos tempo a câmera vai precisar para registrar a foto. 

Nas fotos de céu estrelado, coloquei dois exemplos de ISO diferentes. Nas duas, como já disse, a abertura do diafragma foi f/5.6, mas usei uma sensibilidade bem alta na primeira foto, ISO 1600. Com isso, foi possível deixar a câmera aberta por menos tempo, “somente” 60 segundos. Com o pouco tempo aberto, as estrelas ficaram “paradas”. 

Na segunda, a sensibilidade era bem menor, ISO 400. A minha intenção era dar esse efeito riscado, devido ao movimento de rotação da terra (acharam que as aulas de ciência do primeiro grau não serviam para merda nenhuma, né?). Deixei a câmera trabalhando por 1200 segundos. Sim, 20 minutos! E o efeito é esse, como se centenas de meteoritos estivessem cortando o céu. Outra diferença está na composição da paisagem, já que esse tempo de exposição trouxe toda nitidez da montanha, incluindo o topo nevado. 

3 – Obviamente, você não vai conseguir fazer isso sem um tripé ou um lugar para deixar a sua câmera apoiada e parada, enquanto registra. Um tripé é ideal para toda foto noturna ou em que o tempo de captação da imagem seja alto.

4 – Na foto da cachoeira, também usei um tempo alto de abertura, para conseguir esse belo efeito de “véu de noiva”, 20 segundos. Eu não estava com o tripé e utilizei uma pedra como apoio. Apesar de ter mãos firmes, é possível observar pequenas interferências durante o registro, com menor nitidez, devido às vibrações. 

5 – Se você não souber controlar direito abertura de diafragma e tempo de exposição, boa das câmeras pode fazer isso por você. Elas possuem uma função chamada Aperture Priority (Prioridade de Abertura), representada por um Av (acho que na Nikon é só A). Aí, é só escolher uma abertura bem pequena e apoiar a câmera, que a própria máquina vai tratar de deixar o obturador aberto por mais tempo. Lembrando que as menores aberturas são os valores mais altos! Por exemplo, f/22 é uma abertura menor que f/2.8.

6 – Querem mais dicas? Essa é a última. Achando um apoio adequado ou um tripé, utilize o timer da sua câmera, para não ter que encostar nela na hora de disparar, evitando qualquer tipo de trepidação. Na foto da cachoeira, apesar de ter encontrado um bom apoio, ele não era 100% seguro, por isso tive que continuar segurando e causando essas vibrações.